No passado dia 17 de Março ocorreu o lançamento do METAMORFINA em Évora e aqui ficam alguns testemunhos visuais de amigos que não quiseram deixar de apoiar o seu livro favorito.
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the blues ain’t nothing but a good man feelin’ bad
MOJO HAND – Espécie de amuleto hoodoo, que consiste num pequeno saco, com poderes mágicos, contendo determinados ingredientes e perfumado com certas essências, conforme o feitiço ou o poder a que se destina. Elemento de grande relevo na iconografia do blues.
MOJO – da palavra africana “mojuba” (reza, oração de graças).
HAND – conjunto das diferentes cartas que um jogador tem na mão e de que dispõe para uma partida.
A MOCHO HAND – Partida de blues de Miguel Mocho (guitarras . harmónica . voz), com os trunfos que reúne para cada feitiço. Esta noite: joão aleixo (bateria . congas), núvem (baixo . contrabaixo); jorg demel (sax soprano), gonçalo (guitarra). Nothing But The Blues.
Sociedade Harmonia Eborense :: 07 Janeiro 2006 :: 23h30
Miguel Mocho nasceu em Lisboa. Desde cedo dedicou-se à música, com a consequente acumulação de dívidas e mal-estar físico. Compôs bandas sonoras duvidosas para filmes que ninguém viu e participou, como actor, em produções que ninguém conhece. Mais tarde estudou cinema, o que lhe serve para tecer comentários mais arrojados, quando vai ao Nimas. Estudou desenho e pintura, tendo abrandado a sua actividade nesta área ao constatar que até os deficientes pintam melhor os postais de Natal com os pés do que ele com as suas mãos enormes. Licenciou-se em arquitectura, como plano para arranjar uma carreira, mas acaba por passar os seus dias a escrever histórias bizarras em bares duvidosos... Viajou e residiu em vários pontos do mundo, e morrerá um dia, em parte incerta, de forma despercebida e, certamente, na miséria.
Em 93 apaixonei-me por uma mais velha do que eu... Foi em Milão, e voltei para Lisboa com o coração suspirante. Só no ano seguinte consegui ir buscá-la para junto de mim e, desde então, nunca mais nos separámos. Claro que ela não sai muito, mas compreende-se... já tem uma certa idade.
De Kafkiano, o METAMORFINA tem quase tudo. Começa com o típico "esta manhã acordei e, " depois é o mundo de um indivíduo que se desmorona num conto de escatologia quase gore, onde, por pouco, poderiam caber cenas do "cidadão Tetsuo". As páginas constituídas por uma imagem são uma galeria de horrores e que acentuam um texto que não nos dá descanso em termos de detalhe horripilante e denunciam o incómodo do quotidiano e da vida burguesa. Com um final que ainda tem direito a um "punch-line", uma história só para quem tem estômagos fortes!
Bedeteca de Lisboa prefácio de METAMORFINA LXcomics nº 17 ISBN 972-8487-71-1
Évora - Faro - Londres - Tallin - Londres - Faro - Évora _ 19-26 Jan 005
Depois da aventura em Ljubljana, lá foi o Mocho para Tallinn (Estónia). Palavras para quê!?! É um artista Português! (se lá forem, não provem a Pipra!!! Quem te avisa teu amigo é!)
Londres _ Hammersmith _ Apollo Theatre _ 23 Nov 004
O Tom não pôde ficar na foto, porque estava frio cá fora e doía-lhe a garganta (percebe-se, pela voz do cavalheiro...!). De resto, poucos comentários há a fazer, perante a surrealidade do momento...
Esta manhã acordei e, ao sair da cama, verifiquei que arrastava ligeiramente o pé esquerdo. Era um arrastar pesado, lento, mas compassado: como que um prolongamento do esforço de andar. Eram já horas de sair, mas toda aquela nova situação, que se agravava ao longo dos meus afazeres matinais, me atrasara bastante, ao ponto de levar quase dez minutos só para vestir as calças, e duas vezes um quarto disso para calçar os sapatos. Não poderia aparecer assim no escritório. Nem pensar! Fui ao fundo dos meus recursos, mas nada me parecia eficaz: Um par de muletas iria criar aquela horrivel reacção de piedade passageira, perversamente temperada com o nojo inspirado por uma aberração; e uma bengala só me daria um ar petulante e irrisório. Foi então que, ao passar pela cozinha, para o habitual café da manhã, se me prendeu o pé no armário, refúgio da minha meticulosa colecção de garrafas que, em tantas outras ocasiões, completaram as não menos meticulosas exigências dos prazeres da noite. Aquilo estava a enervar-me e, ao tentar reaver o meu pé, parti uma das três últimas sobreviventes de Brunello di Montalcino de 71. A fúria afogou-me a razão e, num revirar de olhos, um impulso lançou-me as mãos ao aguçado cutelo da carne, deixado sobre a bancada desde o jantar da véspera. Quando a ira se afastou, a razão narrava-me o sucedido: O cutelo jazia no chão, junto a um resto de tecido das minhas calças e ao sapato ensopado em sangue. Dentro deste, ainda palpitava o que fora o meu pé. Fiquei danado com a situação, e tratei logo de pensar em como é que a ía resolver. Nada de hospitais! O que é que eu iria parecer, se se soubesse que tinha cortado o meu próprio pé?! As pessoas têm uma tendência para não compreender esse tipo de coisas… (cont.)
Escrito em 2002, foi agora publicado, em versão BD, com desenhos de João Sequeira e edição da Bêdêteca.